Medidas com apelo eleitoreiro aumentam o “Custo Brasil”, favorecem o mercado externo e ameaçam a competitividade da indústria nacional

Rafael Cervone*

Em setembro, ao lembrar os 140 anos do nascimento de Tarsila do Amaral, uma analogia aparentemente improvável me veio à mente: seu valioso quadro Abaporu (homem que come carne de gente, em tupi-guarani) inspirou o Movimento Antropofágico. Seu manifesto, redigido pelo marido da artista, o escritor Oswald de Andrade, propunha “devorar” as influências internacionais, visando à absorção crítica e à transformação da cultura estrangeira para criar uma identidade genuinamente nacional.

Pois bem, a indústria brasileira, que aprecia a estética da livre, leal e isonômica concorrência, não deseja devorar os produtos importados nem os competidores estrangeiros com os quais disputa o mercado interno e o mundial, mas também não quer ser engolida. Por isso, é preocupante observar que tem sido muito prejudicada, assim como o varejo, por um processo autofágico promovido pelo poder público contra as empresas do próprio Brasil.

Em setembro, ao lembrar os 140 anos do nascimento de Tarsila do Amaral, uma analogia aparentemente improvável me veio à mente: seu valioso quadro Abaporu...

Seriam fundamentais, neste momento, iniciativas capazes de fazer nossa economia crescer de maneira robusta e sustentada e enfrentar com mais desenvoltura a conjuntura global marcada por conflitos bélicos, disputas comerciais cada vez mais acirradas e o endurecimento da política tarifária dos Estados Unidos. No entanto, numa conduta contraditória, o Governo Federal e o Congresso acabam de afetar a competitividade das empresas nacionais, já muito pressionadas historicamente pelo “Custo Brasil”. Sim, aquelas abnegadas organizações que, apesar de tudo, continuam acreditando no País, gerando empregos e pagando impostos.

Refiro-me à aprovação, no Parlamento, da PEC que extinguiu a jornada 6×1, aumentando os ônus trabalhistas de um país que já convive com encargos elevadíssimos, e à Medida Provisória 1.357/2026. Esta, impondo concorrência desigual contra empresas brasileiras, concedeu alíquota favorecida de 30% para importações de até US$ 3 mil e extinguiu a “taxa das blusinhas”, proporcionando total isenção às encomendas internacionais de até US$ 50.

Ambos os atos, adotados por mero interesse eleitoral, são nocivos para as empresas, os trabalhadores e toda a população. Foram adotados por meio de um acordo político pontual entre os poderes Executivo e Legislativo, sem uma análise responsável e aprofundada de seus efeitos no médio e no longo prazo.

Estamos diante de um paradoxo preocupante, pois as duas medidas, com evidente apelo eleitoral, apresentam-se sob o argumento retórico de pretensos benefícios para consumidores e trabalhadores. Seus efeitos práticos, contudo, são opostos: redução da competitividade, aumento dos custos empresariais, desestímulo aos investimentos e ameaça a milhões de postos formais de trabalho.

Conforme defendia o Movimento Antropofágico, inspirado no quadro de Tarsila, deveríamos absorver o que existe de melhor no mundo, rejeitar o que não é adequado, estimular a inovação, elevar a produtividade e tornar nossas empresas mais competitivas. O que não podemos aceitar é a canibalização dos interesses maiores do povo brasileiro, dos empregos e dos investimentos produtivos, estimulada pelo insaciável apetite eleitoreiro daqueles para os quais o futuro do País parece resumir-se às urnas de outubro.

A memória de Tarsila e a canibalização dos empregos 1
*Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

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